Eu e o Garmin

Sete e meia. Tínhamos combinado, eu e um amigo, de treinarmos juntos às sete e quinze. Ele de férias e eu ainda ia trabalhar. Ligamos para sua casa e ele disse que ainda levaria meia hora. Não dava pra esperar.

Ando numa fase difícil de treino: final de ano ganhei uns quilinhos, trabalhando muito, alguns dias até de madrugada, dormindo tarde... Tudo o que é preciso para atrapalhar a corrida.

Levantar cedo pra correr anda muito difícil. Toca o despertador e já vem aquele pensamento: tomara que esteja chovendo. Correr anda desconfortável demais. As pernas parecem amarradas, o ar fica mais rarefeito, o cansaço chega mais cedo, no meio do treino bate aquela vontade de parar que só a teimosia me faz ir até o fim. Nessas horas um companheiro pra treinar junto faz toda a diferença.

Como não ia ser possível esperar resolvi ir sozinho. A planilha marcava: 2 km de aquecimento mais 8 km a 5’55”/Km. Achei conveniente fazer tudo junto e na rua. Dar 25 voltas na pista me faz sentir como um peru bêbado. Vamos lá. O importante é não deixar a peteca cair.

Fui ativar o freqüencímetro e deparei com aquele “reloginho” olhando pra mim com carinha de cachorro diante de balcão de açougue. Logo pensei: “só tem tu vai tu mesmo”. Acionei o Garmin. Ativei o parceiro virtual a 5’55”/Km e vamos lá.

Saí devagar. Não tinha me aquecido, era melhor não abusar. Ele não. Já foi logo saindo na frente. Um quilômetro e ele já bem na minha frente. Dois quilômetros mais ainda, uns 200 metros. Logo pensei: isso é parceiro? Devia chamar-se adversário virtual. Você sai junto e ele logo te deixa pra traz. Com um companheiro assim quem precisa de oponentes?

Mas vamos em frente. Eu ia correr sozinho mesmo. Mas fala a verdade, ser deixado pra traz é muito ruim. Ainda mais por um “reloginho” metido a besta. Vou pegá-lo.

Apertei o passo. O sentimento de ter sido deixado pra traz me dava um gás adicional. Mas não deixei barato: seu filhote de ampulheta, deixa estar, sua bateria vai acabar quero ver quem vai carregar. Eu fiz alguma coisa pra você? Falei alguma coisa que não devia?

Alcancei-o no quilometro seis, já perto da Malteria do Vale. Fui logo tirando satisfação. Ele se desculpou, não consegue mudar seu ritmo. Tudo bem. Relevei. Cada um tem suas limitações. Engrenamos um papo gostoso. Falamos de futebol, cerveja e outras coisinhas interessantes.

Também tenho limitações. Ele não sai do ritmo, eu não o mantenho. Pensando no “morrinho” próximo à CTI acelerei um pouquinho e o deixei para traz. Terminado o morro ainda estava na frente dele. Contornei o ginásio, entrei pelo portão e fui para a pista. Uma volta e pouquinho e completei os quilômetros programados. Cheguei 15 segundos na frente dele. Parece pouco, mas equivale a aproximadamente 50 metros.

Tapinha na mão, murrinho e tudo resolvido.

Quer ver como foi click aqui


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Marilson por um dia

 

A São Silvestre é uma corrida atípica. De todas que participei nenhuma é igual a ela. Não se trata de ser melhor ou pior é diferente.

Todo mundo que corre deveria participar pelo menos em duas edições. Uma para conhecer e outra pra curtir.

É Muita gente. Mas mmmuuuiitttaaaa mesmo. Tem de tudo. Gente fantasiada dos mais diversos personagens e celebridades. Outros carregando alegorias de protesto ou de conscientização. Não sei nem se esse pessoal completa a prova, mas que eles têm um minuto de fama ah isso tem.

Chegamos à Avenida Paulista em torno de duas horas antes da largada. Já tinha muita gente. Cada vez chegando mais. Demos umas voltas pra ver as figuraças e nos sentamos no chão esperando a largada.

Passou rapidinho. De repente todo mundo se levantando para tomar lugar no asfalto. Foi apertando, apertando, apertando... Não dava mais pra andar. O serviço de som anuncia a largada dos atletas de elite. Daqui a pouco é a nossa vez.

Começou...

A gente não anda. Nem corre. É arrastado. Mal dá pra ficar com o pé no chão. Aquele “bolo humano” se movendo em direção ao pórtico de largada que ainda está bem à frente. Aos poucos aquele aglomerado de gente vai se diluindo e já é possível mover-se com os próprios pés. No pórtico de largada já dá pra trotar. Vai assim até o fim da Paulista. Na descida da Consolação, com o uso das duas pistas finalmente dá pra cada um seguir no seu ritmo. Não sem desviar-se de uma multidão à frente que vai bem mais devagar. É assim a corrida toda. Até a chegada.

 O que mais impressiona na São Silvestre é a torcida. Ela está em toda a extensão do percurso. Até sobre o Elevado Costa e Silva (Minhocão). A elite já passou há muito e o povo tá ali. Não arreda pé. Quem corre próximo à calçada se sente um Marilson. Crianças e adultos estendem a mão esperando que você faça o mesmo para um tapinha de cumprimento. Outros, vendo seu nome junto ao número pregado no peito gritam: “vai Cláudio, tá chegando”. Nas primeiras vezes a gente se acha. Quanta gente veio aqui pra torcer por mim...

Na subida da Brigadeiro Luis Antonio, a famosa, isso faz uma diferença danada. Pernas querendo parar, respiração ofegante, batimento cardíaco nas alturas e alguém gritando seu nome e dizendo: “vai, falta pouco, você consegue”, realmente não tem preço.

Quem corre e ainda não participou de uma São Silvestre precisa ir. Entrar na Avenida Paulista e Cruzar a linha de chegada é sempre uma vítória.

Fiz uma composição de vídeos e fotos que tem a emocionante vitória do Emerson Iser Bem em 1997 sobre Paul Tergat, do Marilson dos Santos em 2010 e de outros grandes campeões.

Veja Abaixo.

 


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Mi Buenos Aires Querida...

Pouco mais de meio-dia. O sol brilhava no centro do firmamento, mas uma brisa inexistente me refrescava e me fazia esquecer que meus pés pareciam não existir. Ao avistar a uma curta distância, pra quem já havia percorrido quarenta e tantos quilômetros, o portal de chegada, encho-me de uma força que não consigo imaginar de onde vinha. Foi o meu quilômetro mais rápido em toda a prova. Ao me aproximar do portal uma emoção que não consigo descrevê-la em palavras toma conta de mim. A vontade de chorar é grande, tão grande quanto o cansaço, mas inferior a sensação de vitória por completar minha primeira maratona.

Descrito dessa forma parece um tanto poético, não é uma tarefa impossível para amadores como eu, mas requer muita dedicação e superação. Minha última participação em uma prova havia sido na Tribuna de Santos. 10 km. Já vinha a alguns meses sentindo uma dor na lateral da canela, próximo ao osso que disfarçava com alguns antiinflamatórios, mas nesse dia não deu mais pra esconder: canelite. Fiquei dois meses sem treinar. Só voltei a correr dia 10 de julho, tinha apenas três meses para me preparar. A vontade de correr minha primeira maratona era muito grande e me deu ânimo para alcançar meus amigos nos “longões”, pois eles não tinham interrompido seus treinos. Fiz 11 treinos longos 12 km (10/07), 15 km (17/07), 20 km (24/07), 24 Km (31/07), 26km (07/08), 21Km (21/08 – Meia Maratona do Rio de Janeiro, click aqui escolha a opção aerial e veja o percurso)  30km (27/08 ), 18km (04/09), 34Km (11/09) 20km (18/09) e 30km (23/09), daí até o dia 10/10 só treinos leves. Agora era só esperar o “grande dia”.

Vans paradas ao lado da Igreja de Santa Terezinha, todos muito animados para, enfim, podermos partir para a esperada viagem a Buenos Aires. Cidade agradável, lindas e largas avenidas, parques enormes e em grande quantidade, muito arborizada, monumentos pra tudo quanto é lado. Não podemos negar: esse povo valoriza sua história e seus heróis.

Quatro e trinta. O telefone do quarto toca. Era o recepcionista do hotel avisando que a tão esperada hora chegara. Um leve café da manhã e fomos para a recepção esperar os carros que nos levaria para o local da largada.

Conhece aquele ditado que diz que se alguma coisa puder dar errado isso vai acontecer? Pois é. Aconteceu. Vieram dois carros para nos levar, um deles estava com o pneu furado e ao substituí-lo o motorista percebeu que o estepe também estava. Parecia sacanagem dos “hermanos”. Pior ainda era a informação que não havia outro veiculo para substituí-lo. Optamos por fazer duas viagens. Alguns de nós foram na primeira viagem e outros ficamos esperando que o carro voltasse para nos buscar. A hora passava, a adrenalina subia e nada do carro voltar. Já com os batimentos cardíacos próximo do limite resolvemos tentar um táxi. Demos sorte. Conseguimos um com motorista que gostava de esportes e nos deu a maior força (entenda correu pra caramba) pra chegarmos a tempo da largada. Foi a conta. Parecia tudo combinado. Chegamos e de imediato encontramos nossos companheiros, foi apenas o tempo de batermos uma foto da equipe toda e partir para cumprir o objetivo para o qual havíamos nos preparado.

Passamos pelo pórtico de largada. O cronometro oficial já assinalava pouco mais de cinco minutos da largada. Uma grande multidão manifestando uma enorme alegria passava sob o portal inicial.

Partimos num ritmo lento, tal como havíamos treinado, ou, como dizem jogadores de futebol: fazendo o que o professor mandou...

A cada km percorrido a alegria só aumentava. A intervalos de aproximadamente 5 km havia um grupo musical animando os corredores. Em cada um parávamos rapidamente para uma foto e prosseguíamos em busca do nosso objetivo.

Nos postos de hidratação pegava uma garrafinha d’água, molhava a boca, bebia um pouquinho e seguia em frente. Não queria que o estômago muito cheio me atrapalhasse. Já nos postos de isotônicos pegava um copinho e tomava-o caminhando aproveitando a pausa para recompor as forças e seguir em frente.

A partir dos 20 km a brincadeira começa a tomar ares de seriedade. As conversas e brincadeiras com os companheiros diminuem gradativamente na mesma proporção em que o cansaço aumenta. Já não estamos mais todos juntos, alguns se distanciaram à frente e outros ficaram um pouco atrás.  Seguíamos juntos, eu e o Valter, que começou a sentir câimbras crescentes até que, próximo dos 28 km, me mandou ir em frente que iria caminhar um pouco e esperar nossos companheiros que vinham um pouco atrás.

Segui firme, apesar do cansaço intenso. Próximo dos 30 km uma surpresa me deu um novo impulso: nossas esposas estavam ali a nos incentivar e, ao ouvir minha esposa Silvana gritando “vai marido, vai marido”, tive a certeza de que completaria o percurso.

Os quilômetros seguintes foram críticos. A partir deste ponto aumenta gradativamente o número de participantes que já não agüentam mais correr e fazem o percurso caminhando e outros tantos para quem nem caminhar é mais possível e tentam alongar-se numa esperança de superar suas dores para poder retornar á prova enquanto muitos desistem e sentam-se á beira das calçadas. O momento psicológico é terrível. Você pensa que o próximo pode ser você, o cansaço vai chegando a limites quase insuportáveis. O número de pessoas que permanecem correndo diminui cada vez mais. Nesse momento parece que só mesmo a teimosia nos move em direção à chegada.

Quando parece que não vai mais ser possível continuar lá está ele: o pórtico de chegada. Um fôlego que parecia impossível me arremete em direção a ele. Começo a correr mais rápido. Coração acompanha e acelera também. Embora visualmente próximo parecia, naquele momento, inatingível. Não desisto. Cheguei até aqui vou completar. Foi pra isso que treinei. Foi pra isso que em alguns dias sai de casa para fazer os treinos longos quando o galo cantava e pensando: só louco faz isso.

Cheguei. O que parecia impossível não foi. O que era um sonho agora é uma realidade. Completei minha primeira maratona. Tenho a alegria de estar entre os 5.093 felizardos que passaram pelo pórtico de chegada dentro do limite de seis horas estabelecido pela organização.

Sem dúvida uma importante vitória para minha vida.

Se quiser ver o percurso click aqui escolha a opção aerial.

Abaixo você vai ver um vídeo de fotomontagem desde nossa partida em Taubaté.

Cláudio Ferreira


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