Pouco mais de meio-dia. O sol brilhava no centro do firmamento, mas uma brisa inexistente me refrescava e me fazia esquecer que meus pés pareciam não existir. Ao avistar a uma curta distância, pra quem já havia percorrido quarenta e tantos quilômetros, o portal de chegada, encho-me de uma força que não consigo imaginar de onde vinha. Foi o meu quilômetro mais rápido em toda a prova. Ao me aproximar do portal uma emoção que não consigo descrevê-la em palavras toma conta de mim. A vontade de chorar é grande, tão grande quanto o cansaço, mas inferior a sensação de vitória por completar minha primeira maratona.
Descrito dessa forma parece um tanto poético, não é uma tarefa impossível para amadores como eu, mas requer muita dedicação e superação. Minha última participação em uma prova havia sido na Tribuna de Santos. 10 km. Já vinha a alguns meses sentindo uma dor na lateral da canela, próximo ao osso que disfarçava com alguns antiinflamatórios, mas nesse dia não deu mais pra esconder: canelite. Fiquei dois meses sem treinar. Só voltei a correr dia 10 de julho, tinha apenas três meses para me preparar. A vontade de correr minha primeira maratona era muito grande e me deu ânimo para alcançar meus amigos nos “longões”, pois eles não tinham interrompido seus treinos. Fiz 11 treinos longos 12 km (10/07), 15 km (17/07), 20 km (24/07), 24 Km (31/07), 26km (07/08), 21Km (21/08 – Meia Maratona do Rio de Janeiro, click aqui escolha a opção aerial e veja o percurso) 30km (27/08 ), 18km (04/09), 34Km (11/09) 20km (18/09) e 30km (23/09), daí até o dia 10/10 só treinos leves. Agora era só esperar o “grande dia”.
Vans paradas ao lado da Igreja de Santa Terezinha, todos muito animados para, enfim, podermos partir para a esperada viagem a Buenos Aires. Cidade agradável, lindas e largas avenidas, parques enormes e em grande quantidade, muito arborizada, monumentos pra tudo quanto é lado. Não podemos negar: esse povo valoriza sua história e seus heróis.
Quatro e trinta. O telefone do quarto toca. Era o recepcionista do hotel avisando que a tão esperada hora chegara. Um leve café da manhã e fomos para a recepção esperar os carros que nos levaria para o local da largada.
Conhece aquele ditado que diz que se alguma coisa puder dar errado isso vai acontecer? Pois é. Aconteceu. Vieram dois carros para nos levar, um deles estava com o pneu furado e ao substituí-lo o motorista percebeu que o estepe também estava. Parecia sacanagem dos “hermanos”. Pior ainda era a informação que não havia outro veiculo para substituí-lo. Optamos por fazer duas viagens. Alguns de nós foram na primeira viagem e outros ficamos esperando que o carro voltasse para nos buscar. A hora passava, a adrenalina subia e nada do carro voltar. Já com os batimentos cardíacos próximo do limite resolvemos tentar um táxi. Demos sorte. Conseguimos um com motorista que gostava de esportes e nos deu a maior força (entenda correu pra caramba) pra chegarmos a tempo da largada. Foi a conta. Parecia tudo combinado. Chegamos e de imediato encontramos nossos companheiros, foi apenas o tempo de batermos uma foto da equipe toda e partir para cumprir o objetivo para o qual havíamos nos preparado.
Passamos pelo pórtico de largada. O cronometro oficial já assinalava pouco mais de cinco minutos da largada. Uma grande multidão manifestando uma enorme alegria passava sob o portal inicial.
Partimos num ritmo lento, tal como havíamos treinado, ou, como dizem jogadores de futebol: fazendo o que o professor mandou...
A cada km percorrido a alegria só aumentava. A intervalos de aproximadamente 5 km havia um grupo musical animando os corredores. Em cada um parávamos rapidamente para uma foto e prosseguíamos em busca do nosso objetivo.
Nos postos de hidratação pegava uma garrafinha d’água, molhava a boca, bebia um pouquinho e seguia em frente. Não queria que o estômago muito cheio me atrapalhasse. Já nos postos de isotônicos pegava um copinho e tomava-o caminhando aproveitando a pausa para recompor as forças e seguir em frente.
A partir dos 20 km a brincadeira começa a tomar ares de seriedade. As conversas e brincadeiras com os companheiros diminuem gradativamente na mesma proporção em que o cansaço aumenta. Já não estamos mais todos juntos, alguns se distanciaram à frente e outros ficaram um pouco atrás. Seguíamos juntos, eu e o Valter, que começou a sentir câimbras crescentes até que, próximo dos 28 km, me mandou ir em frente que iria caminhar um pouco e esperar nossos companheiros que vinham um pouco atrás.
Segui firme, apesar do cansaço intenso. Próximo dos 30 km uma surpresa me deu um novo impulso: nossas esposas estavam ali a nos incentivar e, ao ouvir minha esposa Silvana gritando “vai marido, vai marido”, tive a certeza de que completaria o percurso.
Os quilômetros seguintes foram críticos. A partir deste ponto aumenta gradativamente o número de participantes que já não agüentam mais correr e fazem o percurso caminhando e outros tantos para quem nem caminhar é mais possível e tentam alongar-se numa esperança de superar suas dores para poder retornar á prova enquanto muitos desistem e sentam-se á beira das calçadas. O momento psicológico é terrível. Você pensa que o próximo pode ser você, o cansaço vai chegando a limites quase insuportáveis. O número de pessoas que permanecem correndo diminui cada vez mais. Nesse momento parece que só mesmo a teimosia nos move em direção à chegada.
Quando parece que não vai mais ser possível continuar lá está ele: o pórtico de chegada. Um fôlego que parecia impossível me arremete em direção a ele. Começo a correr mais rápido. Coração acompanha e acelera também. Embora visualmente próximo parecia, naquele momento, inatingível. Não desisto. Cheguei até aqui vou completar. Foi pra isso que treinei. Foi pra isso que em alguns dias sai de casa para fazer os treinos longos quando o galo cantava e pensando: só louco faz isso.
Cheguei. O que parecia impossível não foi. O que era um sonho agora é uma realidade. Completei minha primeira maratona. Tenho a alegria de estar entre os 5.093 felizardos que passaram pelo pórtico de chegada dentro do limite de seis horas estabelecido pela organização.
Sem dúvida uma importante vitória para minha vida.
Se quiser ver o percurso click aqui escolha a opção aerial.
Abaixo você vai ver um vídeo de fotomontagem desde nossa partida em Taubaté.
Cláudio Ferreira
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